A REALIDADE PELA FICÇÃO
Engraçado de um jeito peculiar. As pessoas que leram Flores para Algernon também se identificaram? Vi alguns comentários dizendo que o livro não é bom, que só faz os leitores sentirem pena de pessoas com deficiência intelectual. Discordo completamente.
Analisando a parte da escrita, senti que o ritmo não se mantém o mesmo do início ao fim. A leitura ficou um pouco mais lenta pela metade da história, se recuperando no final, mas fora isso, não encontro motivos para a crítica. Quanto ao conteúdo, me vejo em processo de absorção e entendimento ainda, mesmo tendo terminado o livro há três dias.
Quando eu fazia meu primeiro estágio obrigatório de Letras, conheci uma aluna de 16 anos que cursava o 7° ano do fundamental. Ela não se enturmava com os colegas e não tinha a malícia que adolescentes da sua idade têm. Ela gostava de conversar comigo, me contando, na maior parte do tempo, sobre o trabalho da sua mãe e sua rotina com a escola. Ela passava as aulas de português inteiras falando comigo enquanto copiava as questões do livro didático (a cópia era exigida pelo professor). Só copiava, sem nunca responder nada. Percebi que esse comportamento se repetia em todas as outras matérias, e como era uma aluna quieta (quando não tinha a minha companhia), nenhum professor parecia perceber suas dificuldades.
Em uma das aulas de português, decidi ajudá-la com a tarefa, auxiliando o entendimento da atividade. Contudo, não importava a explicação que eu desse, ou as perguntas primárias que eu fazia para que conseguisse interpretar o texto proposto, ela não entendia. E havia um esforço, mas o entendimento não acontecia. Mais tarde, levei minha percepção ao professor regente, questionando sobre uma possível dificuldade de aprendizagem. O professor acabou me dando uma resposta vazia para que eu encerrasse o assunto.
Fico pensando hoje se essa aluna não tinha uma deficiência intelectual, porque, de certa forma, Charlie Gordon fez eu me lembrar dela.
Charlie viveu, no livro, os dois extremos de uma inteligência. E é engraçado que me identifiquei com ele nesses dois opostos. O personagem nasceu com uma deficiência intelectual e depois de passar por uma cirurgia cerebral alcançou um QI elevadíssimo.
Não sei nada sobre o autor da obra, se convivia com pessoas neurodivergentes ou se foi uma pessoa neurodivergente, mas posso dizer que ele foi muito assertivo em montar um personagem gênio que sofre profundamente com a solidão pela falta de conexão com os outros, além do desnível entre inteligência intelectual/acadêmica e inteligência emocional como consequência dessa genialidade.
Nos dois extremos: baixo QI e alto QI, há um não-pertencimento social. No primeiro lado, Charlie não se sentia socialmente integrado por não entender nada; no segundo, por entender demais. E é exatamente essa solidão que eu também vivencio: o não entender por entender demais. É como se os dois Charlies Gordon habitassem em mim. (Não sei se você entenderá o que quero dizer).
Existem muitas outras questões que Flores para Algernon traz que não cabem no espaço deste texto. Muitas delas ainda estão em processamento pelo meu subjetivo. Atualmente eu passo por uma avaliação neuropsicológica, e todo tema que abrange a neurodiversidade me é de interesse imediato. Mas não chego a nenhuma conclusão pessoal a partir do livro.
O que fica disso tudo como reflexão final é que existe uma semelhança entre pessoas que não tiveram seu desenvolvimento neurocognitivo dentro do que consideramos “padrão” ou típico. Uma semelhança social de não-pertencimento. O não-pertencer sempre foi algo presente em minha vida.
Recomendo a leitura se você gosta de ficção científica com psicologia experimental.
Comentários
Postar um comentário