EU NÃO PODERIA PARAR DE CULTIVAR BORBOLETAS
um dia sonhei lucidamente com uma borboleta, mas você sabe que minhas borboletas são transparentes. um dia encontrei a borboleta sonhada em pedaços de papel; não eram meus papéis, veja bem. papéis de rua, de pessoas que não sou eu. não sei se já te contei, mas tenho alguns rituais para manter minha existência: um deles é me procurar nos papéis dos outros, um outro, é acender uma vela pequena enquanto penso profundamente em mim. sim, coleciono pequenas velas assim como fotografias de pássaros e pessoas mortas. o que incomoda é essa gripe e esse trabalho que me ausentam desses meus pedaços de ser. soa repetitivo? na parte do armário onde guardo de tudo tem uma fotografia em preto e branco de um gato sentado no muro de uma casa de madeira. os japoneses têm uma intimidade simbólica com a madeira, assim como a memória de meus avós — li num livro uma vez — sinto falta de segurar um livro nas mãos, de sentir o peso da madeira. quando eu era criança procurava pelas fada...