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EU NÃO PODERIA PARAR DE CULTIVAR BORBOLETAS

  um dia sonhei lucidamente com uma borboleta, mas você sabe que minhas borboletas são transparentes. um dia encontrei a borboleta sonhada em pedaços de papel; não eram meus papéis, veja bem. papéis de rua, de pessoas que não sou eu. não sei se já te contei, mas tenho alguns rituais para manter minha existência: um deles é me procurar nos papéis dos outros, um outro, é acender uma vela pequena enquanto penso profundamente em mim. sim, coleciono pequenas velas assim como fotografias de pássaros e pessoas mortas. o que incomoda é essa gripe e esse trabalho que me ausentam desses meus pedaços de ser.  soa repetitivo?  na parte do armário onde guardo de tudo tem uma fotografia em preto e branco de um gato sentado no muro de uma casa de madeira. os japoneses têm uma intimidade simbólica com a madeira, assim como a memória de meus avós — li num livro uma vez —  sinto falta de segurar um livro nas mãos, de sentir o peso da madeira. quando eu era criança procurava pelas fada...

UMA MENTIRA ANTECEDIDA DE UMA INDIFERENÇA NUMA VERSÃO DE CARINHO INCOMPLETO

  o que eu sinto? entrei num buraco inevitável, inevitável; um buraco grande que se conecta com vários outros pequenos. eu sinto uma mentira seguida de uma indiferença misturada a outras mentirinhas sem valor. eu sinto uma desconexão e resquícios no ar de algo que fan-ta-si-o-sa-men-te poderia ter sido. o controle da ilusão, de uma ilusão que por essência não existe. o abstrato criado de vazios: o que eu vejo e o que é real. ocupo minha vida com criações de personagens todos eles se projetando a mim. o real não cabe e logo vem uma duas três ou quatro versões daquilo mesmo que sou eu, visto no outro. o outro é um vazio para mim que trato de preencher com as minhas próprias formas; minhas próprias porque de tão numerosas e desiguais acabam por apenas encontrar habitação no outro. todas as culpas e os defeitos são meus, assim como toda a delicadeza e sentimento. um embate me dá vontade de chorar porque encontro a mim no outro e nunca o outro em si. cansei de contar quantas pessoas me ...

UM CORPO DENTRO DE UM CORPO DENTRO DE UM CORPO DENTRO DE

  Acho que a gente se perdeu no caminho, sabe.  Acho que chegamos na descoberta de que não nos reconhecemos, não reconhecemos nossa história, nossa calmaria, as coisas que podem brilhar frente aos nossos olhos. Quando olho no espelho vejo um luto. E há tantos desses! A última vez que o céu estava cinza e eu estava aqui, escrevendo de frente pra janela, eu falava de um luto. O luto de tantos, de muitos que carrego em mim. Perceber. Perceber que eu morro todas as vezes, mas não admito, e carrego meu corpo morto dentro de um espaço que não se reconhece. Às vezes me dizem que existem coisas boas na vida, carregar a morte é uma delas? Veja, o sol aparece quando pensamos no outro. Mas e quando pensamos em nós? Carrego muitas coisas, muitas coisas. Eu gostava de cantar e de olhar a chuva. Eu gostava de sonhar. Se uma pessoa que está me conhecendo pergunta do que eu gosto, eu esvazio. Começamos a caminhar o caminho do outro, sabe, daquele que nem existe. Quando eu tinha doze anos, jog...

EXPURGAR O CORAÇÃO PARA COMÊ-LO

expurgar o coração para comê-lo eu ouço o que sai e tenho nojo, nojo do nascimento e seus fluidos, tenho nojo de gritar que dói quando me corto, e repito sempre repito porque precisa ser limpo , perfeito, limpo e perfeito, limpo e perfeito me mato, me mato porque gosto porque é confortável, a morte não tem fluidos: limpa limpa! , encerramentos são primorosos, não acha, não acha? tenho um grito na garganta, muitos gritos na garganta, quero comê-los mas eles não descem, não descem! me apaixonei uma vez na vida e tive nojo. foi uma vez, fiquei tão feliz, tão feliz que sentia vontade de vomitar. nunca lhe contei, nunca dei nascimento ao que estava morrendo para nascer. e morreu. por fim morreu. a inteligência artificial me disse que a paixão dura dois anos. eu não aguentaria, e não durou. me machuquei até matar, e deu certo a morte e o perfeccionismo andam lado a lado, ouvi uma vez, deve ser por isso que tenho tendências ao sádico quando quase me apaixonei pela segunda vez, eu disse: nã...

UM POEMA

  perda da mente labiríntica  não se contemplar com o mundo não é um impulso suicida é o planejamento de uma vida conversávamos o tempo todo com a morte aliás rejeição mortuária espanta ao amor que não existe me cavo infinitamente me cavo espanta… olho/olho me faço desaparecer porque me assunto fora quando estive fora? sujeira em cima do tapete — não dá pra limpar? o perten|cimento inócuo paranoia do registro sensível presa presa o animal que se machuca com a própria armadilha (não há oxigênio dentro da esfera) quando volta se volta  volta? vive com medo de quebrar o… quê?

ESCREVER CASAS

Tem uma… coisa.  Eu tenho uma coisa. Descobri, tirando fotos da lua cheia, que gosto de ser fantasma. E tem essa… coisa. Achei que o tempo tinha parado porque as nuvens não se mexiam, mas o escape de uma moto me tirou do pensamento. Estou escrevendo um livro. Outro. Já perdi a conta de quantos livros eu tenho escrito. Há anos me vejo observando casas. Sempre busco a imagem de uma casa para montar um quebra-cabeça. Até que percebi que escrevo casas em meus livros. Minha casa antiga é escura, e eu gosto muito da penumbra amarelada que fica independente da hora do dia.  Minha casa suspira de vez em quando, às vezes chora também. Um dia sonhei que chovia muito, mas nenhuma gota passava pelas janelas abertas. As janelas da minha casa formam desenhos no chão quando a luz atravessa. Não são janelas modernas, tampouco comuns. Eu tenho um hábito de me encantar com a casa vazia, sabe. Ela nunca está vazia, na verdade. Eu gosto que, de casa, dá pra ver a amplitude do céu. Às vezes imagin...

A MORTE EM SI

Quando a Agatha estava morrendo, eu passei a noite escutando Natalia Lafourcade. Seu último álbum: De Todas Las Flores. É impossível dormir quando o corpo se torna poesia. Quando as gotas batem nas telhas de casa. Chovia muito quando cheguei no portão da uti. O tempo de espera para me receberem foi o tempo de sufocar da Agatha. Ela não resistiu. Eu não resisti.  Ouve-se pelos cantos que o luto dura dois meses. O luto de um amor dura o resto da vida. A percepção da existência se torna distorcida à realidade dos outros quando conhecemos a morte com mais intimidade do que gostaríamos. Eu sinto que, mesmo tentando, não é possível pertencer ao mesmo lugar que o lugar dos outros. Me vejo como um outro me mantendo por perto do que é comum. A consciência da morte e seu entrelaçamento com a vida. Um olhar atento e cativo ao que se parte física e simbolicamente. Aquilo que é nebuloso a quem perdeu sua sensibilidade. Agatha levou quatro meses para partir. E eu ainda olho de perto meu pedaço d...