SAUDADE

 

este ano, especificamente este ano, tenho ficado muito longe de mim. 

é isso que faz parte do envelhecer? 

perder-se de um jeito que só é possível se encontrar no outro. 

“alguns dias e eu já começo aos poucos a retornar àquela pessoa de vinte anos, bem menos independente e bem mais perdida. eu não me tornei adulta ali.” ¹  

antes de me tornar adulta, eu era bem mais independente e bem menos perdida. eu me tinha, em todas as minhas fissuras, eu estava comigo da maneira que sabia estar. então eu paro de escrever. eu paro de escrever quando atuo. talvez seja difícil entender os diferentes tipos de máscaras, os diferentes tipos de panos que uso; quando me pergunto… a resposta parte de um não sei. crises existenciais surgem quando fico doente; a incerteza da vida ocupa todo meu lugar. andamos buscando um lugar, mas sem nunca mover os pés. porque o medo de precisar voltar… e a covardia… não andamos mais do que o espaço de abrir uma janela pra ver o sol depois da chuva. sou covarde por desejar ter todos os meus pedaços em mim, mesmo que cortantes, desfigurados e velhos. destoo porque meu rosto só pode ser observado através de uma janela. 

o mundo é perigoso, não é? 

no entanto, meu corpo está lá enquanto minha face permanece assustada por detrás de um vidro. meu corpo pode voltar. meu rosto não consegue ir. visto uma máquina cansada de sorrisos. sem querer sorrir, a máscara envelhece. 

isso que é o envelhecer? 

cortar retalhos de feições enquanto o rosto apodrece. meu escrever é escasso porque meu corpo está no mundo e ninguém senta ao meu lado: 

não quero que sentem, não busco sentir.




¹ trecho da zine Vidas Passadas: um ensaio-passeio com o filme Vidas Passadas por Luisa Manske.


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