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QUANDO ATRAVESSAMOS JANELAS

     Li um livro chamado Não aceite caramelos de estranhos ( No aceptes caramelos de extraños ). Embora “Árvore genealógica” e “Miopia” tenham sido meus contos preferidos, foram “Meio corpo para fora navegando pelas janelas” e “O incômodo de sermos anônimos” que mais me cutucaram. Seus temas coincidem: a solidão humana.      Algum filósofo já disse que a essência do ser humano é a solidão. Que mesmo compartilhando coisas em comum e criando laços, estamos fadados a viver com um subjetivo só nosso, que ninguém consegue alcançá-lo de fato, além de nós mesmos. (Ou será que estou me confundindo e isso é coisa da psicanálise?).      Ou talvez, eu poderia arriscar um: somos solitários dentro de uma cultura ocidental branca e capitalista.      Semana passada, fui na casa de cereais comprar a minha rotineira broa caseira. Quando a atendente me viu, soltou um suspiro: “pensei que tinha acontecido alguma coisa com você! já faz tempo que n...

CHÁ DE HORTELÃ

  Ao preparar o desjejum, escuto a canção desesperada da minha mãe-pássaro. Entro no jardim com os pés descalços para avistar o minúsculo piar na pitangueira.  Meus olhos tentam alcançar algum movimento, mas minha visão falha não é capaz de nada. Encontro um ninho pendendo de um galho morto.  Me agacho e começo a chamar por filhos assustados em meio à matéria orgânica, quando vejo dois ovinhos partidos.  Sinto tanto pela mãe-pássaro: tínhamos esperança de nos recuperar. Mesmo sem a ver, lhe conto que nossos filhos se quebraram. Ajeito o ninho em um galho vivo e coloco as cascas no centro dos gravetos, para que possamos olhar nosso luto de pé. Saio do jardim sem fazer ruídos.  Colho uma folha de hortelã. Limpo os pés. Aqueço a água e bebo meu chá longe do tempo.

TENHO PENSADO EM DEUS E NA EXISTÊNCIA

  Tenho pensado em Deus e na existência; e me deparo com questões óbvias como: o que estamos fazendo enquanto humanidade, o que estou propensa a fazer comigo enquanto vivo? As pessoas correm. A sociedade corre atrás do rabo do tempo. Tenho saído para caminhar por uma hora. Estranha sensação de estar fora de casa. Fora. De fora. Estranho percorrer ruas vazias, observar muros, subir e descer asfaltos. Encontrei uma árvore carregada de pitangas em uma das vezes. Estava com sede. Enquanto caminho, meu corpo livre, minha mente limpa, minha alma aberta a sentir a existência. Sinto Deus. Não a abstração criadora semelhante ao homem. Deus: o ser vivo que habita em mim. Pude sentir o gosto de Deus nas pitangas maduras. Estranho sair do fluxo da corrida. Nunca fui de correr, mas quando se está no meio da roda, empurrões e chutes para acompanhar o movimento acabam acontecendo. Me sinto em transe, tão concentrada numa jornada em busca de… de nada. Só consigo pensar em Deus e sua liberdade. Cho...

VOZ PRÓPRIA NA ESCRITA

        O verdadeiro encontro acontece quando a gente silencia a busca.      Eu tenho uma facilidade tremenda em escrever textos curtos, em sintetizar ideias, fazer resumo, dizer muito em poucas palavras. Pra muita gente que escreve ou faz pesquisa, esse é um belo de um defeito. Já tentei me alongar, inventar coisas, dar umas enroladas pra chegar a um texto de pelo menos 1500 palavras. Mas como é difícil! Algumas vezes até consegui escrever umas seis folhas, mas quando olho pra isso, não sinto que é meu. Sempre ouço que um bom escritor consegue transformar três palavras em uma folha… talvez eu não seja um bom escritor.  Não tem texto que não caia em minhas mãos que eu não sinta vontade de passar a caneta comentando: você está dizendo a mesma coisa faz dez páginas! Realmente, não sou um bom escritor, já que nem escritor, de fato, sou. Sou poeta e não escrevemos mais odisseias.  Tem uma parte em A hora da estrela em que o narrador d...

POR QUE ESCREVO

  Se eu ganhasse uma moeda a cada vez que me perguntam por que eu escrevo, encheria um cofrinho. Mas seria um cofrinho de plástico, desses bem baratinhos, pra não correr o risco de ficar sem moedas depois do investimento. Uma vez me perguntaram por que eu escrevo histórias. Demorei um ano pra responder que não escrevo histórias, que escrevo palavras, e se essas palavras contam histórias, o que eu tenho a ver com isso? Eu escrevo. Escrevo desde que aprendi a escrever. Por necessidade? Por falta do que fazer? Pra ganhar um prêmio? Pode até ser que essas sejam as respostas de alguém. Eu só escrevo mesmo. Escrever é um ato básico do ser humano; ou as pessoas por acaso só começam a contar pra serem intelectuais da matemática? Um dia fiquei sabendo que tudo é crônica. Se não se enquadra na poesia ou na prosa, é crônica. Se tem umas palavras formando alguma coisa, não querendo chegar a lugar nenhum, é crônica. Achei ótima a definição. A partir daquele dia, soube que era cronista. Que chiq...

E SE VOCÊ SOUBESSE QUE MEDITA SEM SABER

Era noite de vento quente. Fora de casa, eu estava pendurada no varal sem saber o que fazia com meus braços. De pijama, ninguém podia me ver. O bairro ocupado mergulhava em luzes artificiais. E eu era só dela. As nuvens me levantaram voo através da brisa. Sussurraram histórias dos ventos enquanto eu era repousada em sua umidade de chuvisco. Cantamos juntas seguindo procissão até a lua. Lua cheia. Imensa e mais brilhante do que jamais vi. Fui engolida por sua boca de prata e desapareci. . . .  A primeira vez que entrei em meditação profunda, me encontrei como vento. Eu tinha lido um livrinho sobre atenção plena (mindfulness) e decidi pôr em prática um dos exercícios: levei uma cadeira confortável para o quintal, me sentando onde o sol não queimaria minha cabeça; eu usava roupas largas para que os tecidos apenas encostassem em minha pele. Ajeitei a coluna deixando-a ereta sem pesar; repousei as palmas das mãos nas coxas e fechei os olhos. Muitos manuais de meditação falam q...

NUNCA ESCUTEI UMA MÚSICA SALVADOREÑA

          Nas minhas típicas crises de ansiedade dos finais de semana, a única coisa que me acalma é cantar bem alto músicas latinas. Quase na hora do almoço do sábado, coloco para tocar uma playlist de uma nova banda de Bogotá que está fazendo muito sucesso entre os hispanohablantes . Enquanto guardo a louça seca do dia anterior, o ritmo latino toma conta do meu corpo e quando percebo, minha performance está em seu auge, percorrendo a casa toda. Tenho uma certa paixão pela cultura latino-americana. Não é à toa que passei quatro anos estudando formalmente a língua espanhola. Eu sempre tive oportunidade de conversar com intercambistas na universidade.  Conheci uma garota de Costa Rica no banheiro: ela tentava, de um jeito impossível, perguntar onde tinha papel (coisa rara na universidade pública). A partir dela, conheci duas mexicanas e um salvadoreño , que logo me levaram a um grupo de sete pessoas da América Latina. Era bonito ouvir a gente conv...