Postagens

QUEM É VOCÊ?

  Quem são vocês? Uma vez, dois adolescentes entraram na sala de reforço para matar aula. Percebi a pressa com que se escondiam ali e logo soube o que estava acontecendo. “Quem são vocês?”, perguntei na defensiva. Eles me disseram seus nomes, e aquilo me desestruturou. Quem é você, pessoa que me lê? Recentemente passei por uma experiência de apresentação de mim mesma. Meu nome não importava, assim como não importava o nome de ninguém ali; o que era importante era dizer o que eu estava fazendo naquele lugar e na vida. Quando perguntei aos adolescentes quem eles eram, também não estava interessada em saber quem de fato eram, mas o que faziam ali. Qual é o seu nome, pessoa que me lê? Tem uma música que diz que “a gente é aquilo que a gente faz”. Numa apresentação pessoal sem objetivo específico encontro a mesma falha. “Quem é você?” está substituído por “como você ganha dinheiro?”, “que remédios toma?”, “você se dá bem com seus pais?”. Poderia ser uma piada, mas não é. Inclusi...

A NECESSIDADE DE GRITAR

Tenho pensado na necessidade de gritar. Na necessidade de estarmos gritando o tempo todo para que nossa existência seja admitida. Um grito simbólico. Eu vejo gente gritando o tempo todo para conseguir a aprovação de existir. E o que acontece com aquela gente que silencia? Se a gente não grita, morre pela memória de outra gente que mantém o grito com avinco. Por quanto tempo as pessoas conseguem suportar um silêncio? Alguém deve ter dito que o silêncio é sábio e o grito é desespero. Se ninguém o disse, digo agora. Contudo, ainda é possível gritar no silêncio, assim como encontrar sabedoria no desespero. Eu escrevi um livro, e o engoli logo que ganhou vida. Meu livro existe no silêncio. Mas eu o escrevi gritando, e se eu o grito, ganho existência. Meu livro existe no silêncio. Entendo que, se não gritamos, entramos em desespero, e que o desespero nos leva a gritar. Também preciso dizer que: muitas vezes é doloroso gritar. Gritar cansa fácil. Por isso, eu aprendi a gritar em silêncio.

A REALIDADE PELA FICÇÃO

Eu me identifiquei muito com Charlie Gordon. Engraçado de um jeito peculiar. As pessoas que leram Flores para Algernon também se identificaram? Vi alguns comentários dizendo que o livro não é bom, que só faz os leitores sentirem pena de pessoas com deficiência intelectual. Discordo completamente. Analisando a parte da escrita, senti que o ritmo não se mantém o mesmo do início ao fim. A leitura ficou um pouco mais lenta pela metade da história, se recuperando no final, mas fora isso, não encontro motivos para a crítica. Quanto ao conteúdo, me vejo em processo de absorção e entendimento ainda, mesmo tendo terminado o livro há três dias. Quando eu fazia meu primeiro estágio obrigatório de Letras, conheci uma aluna de 16 anos que cursava o 7° ano do fundamental. Ela não se enturmava com os colegas e não tinha a malícia que adolescentes da sua idade têm. Ela gostava de conversar comigo, me contando, na maior parte do tempo, sobre o trabalho da sua mãe e sua rotina com a escola. Ela passava ...

COMO LAVAR UM TRAVESSEIRO

  De tempos em tempos é preciso lavar os travesseiros. Você pode optar por comprar um novo a cada vez que o antigo ficar inutilizável, mas advirto que o novo acabará sujo mais dia menos dia. Quantos travesseiros sujos está disposte a acumular durante a vida? A melhor forma de lavagem é mergulhar todo o tecido na máquina já cheia de água, e segurar a espuma o mais fundo possível por um tempo, para que toda a extensão do sonho se mantenha molhada. Depois, é hora de bater com sabão, mas não aconselho muita espuma, pois deixa o toque áspero. E por favor, não use amaciante. Aquela máscara não serve de nada. Você poderá perceber que, assim que o travesseiro for centrifugado, será impossível secar tudo ao sol. Por isso, escolha uma parte para ser descosturada. Remova todo o recheio e o estenda ao vento. Se for um dia quente, você poderá recolher tudo em algumas horas. Se desconfiar que irá chover nos próximos dias, reserve um espaço para que seus sonhos abertos possam descansar.  Apó...

O MURO CAIU SOBRE O BEIJINHO

  O muro caiu sobre o beijinho. Eu havia plantado na sombra porque sabia que seria delicado. No entanto, cresceu mais do que qualquer outro que eu já conheci. Seu caule, talvez, procurasse o sol. Ou se imaginava como árvore, se avizinhando ao redor. Soterraram minha flor rosa. A única que se deu. (como se planta uma flor? como se mata uma planta?) A pitangueira ficou. Uma vez encontrei deus comendo pitanga, mas eu não acredito em deus. Apesar do muro caído, a pitangueira ficou. Eu esperava que ela tivesse ido, não minha flor. Se não tivesse um ninho de pardais, eu teria de matar. Mas não posso matar pardais, já perdemos nossos filhos uma vez. (por que arrancam nossos galhos secos de nós? nossos troncos ocos? nossa pele que se solta?) É feio espiar pelo muro caído, o buraco do mundo, túnel de minhoquinhas. Não posso mais esperar pelo meu beijinho.

LIVROS QUE FALAM DE LIVROS QUE FALAM DE POLÍTICA

       Durante a leitura de Um apartamento em Urano: crônicas da travessia , de Paul B. Preciado, me deparei com um texto intitulado A revolução dos bichos. A crônica me veio com potência, e posso me arriscar a dizer que essa é uma das crônicas mais potentes do livro. E por ser assim, me fez analisar todo meu percurso histórico pessoal de construção de senso crítico.      Quando eu estava na 8ª série, hoje 9° ano do ensino fundamental, a professora de história pediu que a gente lesse A revolução dos bichos , de George Orwell, pois faria um estudo guiado sobre a obra. A biblioteca da escola não tinha exemplares para serem emprestados, por isso, a maioria dos alunos não conseguiu o livro. Ainda assim, a professora, improvisando, trabalhou com metade da narrativa. Eu era um dos poucos alunos que tinha o livro em mãos. No entanto, devido ao grande número de estudantes dentro de uma sala de aula — alunos, devo acrescentar, que estavam na pior fase da puberd...

CARTA ABERTA ÀS PESSOAS QUE ME CONHECEM HÁ TEMPO

       Você não me conhece. Talvez nunca tenha me conhecido de fato. Eu sempre fui o que era mais adequado ser. Nunca eu. Desculpe, posso estar te enganando, eu já fui eu algumas vezes na vida, quando escrevia; você me lia? conseguia me ler? No meio dos outros, sempre fui um outro, estranho a mim mesme.      Comecei a procurar por mim há apenas alguns anos. Você percebia como eu me escondia? E eu me escondia tão bem que a minha busca por mim se tornou muito difícil. Onde eu estava? Em que canto, encolhide? Hoje vejo deslumbres, partes de mim que me assustam, que me fazem fugir. Vejo beleza nessas partes também, embora precise de mais partes pra me ajudar a ver.      Tenho descoberto muitos Ds habitando em mim, mas isso não é significativo pra você. Talvez você nem saiba que também tem outros nomes. Eu tenho dezenas, até onde conheci. Uma vez sonhei que um exército de Evelyns apáticas descia a rua; eu não me reconheci nelas, mas na minha ...