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SAUDADE

  este ano, especificamente este ano, tenho ficado muito longe de mim.  é isso que faz parte do envelhecer?   perder-se de um jeito que só é possível se encontrar no outro.  “alguns dias e eu já começo aos poucos a retornar àquela pessoa de vinte anos, bem menos independente e bem mais perdida. eu não me tornei adulta ali.” ¹    antes de me tornar adulta, eu era bem mais independente e bem menos perdida. eu me tinha, em todas as minhas fissuras, eu estava comigo da maneira que sabia estar. então eu paro de escrever. eu paro de escrever quando atuo. talvez seja difícil entender os diferentes tipos de máscaras, os diferentes tipos de panos que uso; quando me pergunto… a resposta parte de um não sei. crises existenciais surgem quando fico doente; a incerteza da vida ocupa todo meu lugar. andamos buscando um lugar, mas sem nunca mover os pés. porque o medo de precisar voltar… e a covardia… não andamos mais do que o espaço de abrir uma janela pra ver o sol dep...

EU NÃO PODERIA PARAR DE CULTIVAR BORBOLETAS

  um dia sonhei lucidamente com uma borboleta, mas você sabe que minhas borboletas são transparentes. um dia encontrei a borboleta sonhada em pedaços de papel; não eram meus papéis, veja bem. papéis de rua, de pessoas que não sou eu. não sei se já te contei, mas tenho alguns rituais para manter minha existência: um deles é me procurar nos papéis dos outros, um outro, é acender uma vela pequena enquanto penso profundamente em mim. sim, coleciono pequenas velas assim como fotografias de pássaros e pessoas mortas. o que incomoda é essa gripe e esse trabalho que me ausentam desses meus pedaços de ser.  soa repetitivo?  na parte do armário onde guardo de tudo tem uma fotografia em preto e branco de um gato sentado no muro de uma casa de madeira. os japoneses têm uma intimidade simbólica com a madeira, assim como a memória de meus avós — li num livro uma vez —  sinto falta de segurar um livro nas mãos, de sentir o peso da madeira. quando eu era criança procurava pelas fada...

UMA MENTIRA ANTECEDIDA DE UMA INDIFERENÇA NUMA VERSÃO DE CARINHO INCOMPLETO

  o que eu sinto? entrei num buraco inevitável, inevitável; um buraco grande que se conecta com vários outros pequenos. eu sinto uma mentira seguida de uma indiferença misturada a outras mentirinhas sem valor. eu sinto uma desconexão e resquícios no ar de algo que fan-ta-si-o-sa-men-te poderia ter sido. o controle da ilusão, de uma ilusão que por essência não existe. o abstrato criado de vazios: o que eu vejo e o que é real. ocupo minha vida com criações de personagens todos eles se projetando a mim. o real não cabe e logo vem uma duas três ou quatro versões daquilo mesmo que sou eu, visto no outro. o outro é um vazio para mim que trato de preencher com as minhas próprias formas; minhas próprias porque de tão numerosas e desiguais acabam por apenas encontrar habitação no outro. todas as culpas e os defeitos são meus, assim como toda a delicadeza e sentimento. um embate me dá vontade de chorar porque encontro a mim no outro e nunca o outro em si. cansei de contar quantas pessoas me ...

UM CORPO DENTRO DE UM CORPO DENTRO DE UM CORPO DENTRO DE

  Acho que a gente se perdeu no caminho, sabe.  Acho que chegamos na descoberta de que não nos reconhecemos, não reconhecemos nossa história, nossa calmaria, as coisas que podem brilhar frente aos nossos olhos. Quando olho no espelho vejo um luto. E há tantos desses! A última vez que o céu estava cinza e eu estava aqui, escrevendo de frente pra janela, eu falava de um luto. O luto de tantos, de muitos que carrego em mim. Perceber. Perceber que eu morro todas as vezes, mas não admito, e carrego meu corpo morto dentro de um espaço que não se reconhece. Às vezes me dizem que existem coisas boas na vida, carregar a morte é uma delas? Veja, o sol aparece quando pensamos no outro. Mas e quando pensamos em nós? Carrego muitas coisas, muitas coisas. Eu gostava de cantar e de olhar a chuva. Eu gostava de sonhar. Se uma pessoa que está me conhecendo pergunta do que eu gosto, eu esvazio. Começamos a caminhar o caminho do outro, sabe, daquele que nem existe. Quando eu tinha doze anos, jog...

EXPURGAR O CORAÇÃO PARA COMÊ-LO

expurgar o coração para comê-lo eu ouço o que sai e tenho nojo, nojo do nascimento e seus fluidos, tenho nojo de gritar que dói quando me corto, e repito sempre repito porque precisa ser limpo , perfeito, limpo e perfeito, limpo e perfeito me mato, me mato porque gosto porque é confortável, a morte não tem fluidos: limpa limpa! , encerramentos são primorosos, não acha, não acha? tenho um grito na garganta, muitos gritos na garganta, quero comê-los mas eles não descem, não descem! me apaixonei uma vez na vida e tive nojo. foi uma vez, fiquei tão feliz, tão feliz que sentia vontade de vomitar. nunca lhe contei, nunca dei nascimento ao que estava morrendo para nascer. e morreu. por fim morreu. a inteligência artificial me disse que a paixão dura dois anos. eu não aguentaria, e não durou. me machuquei até matar, e deu certo a morte e o perfeccionismo andam lado a lado, ouvi uma vez, deve ser por isso que tenho tendências ao sádico quando quase me apaixonei pela segunda vez, eu disse: nã...

UM POEMA

  perda da mente labiríntica  não se contemplar com o mundo não é um impulso suicida é o planejamento de uma vida conversávamos o tempo todo com a morte aliás rejeição mortuária espanta ao amor que não existe me cavo infinitamente me cavo espanta… olho/olho me faço desaparecer porque me assunto fora quando estive fora? sujeira em cima do tapete — não dá pra limpar? o perten|cimento inócuo paranoia do registro sensível presa presa o animal que se machuca com a própria armadilha (não há oxigênio dentro da esfera) quando volta se volta  volta? vive com medo de quebrar o… quê?

ESCREVER CASAS

Tem uma… coisa.  Eu tenho uma coisa. Descobri, tirando fotos da lua cheia, que gosto de ser fantasma. E tem essa… coisa. Achei que o tempo tinha parado porque as nuvens não se mexiam, mas o escape de uma moto me tirou do pensamento. Estou escrevendo um livro. Outro. Já perdi a conta de quantos livros eu tenho escrito. Há anos me vejo observando casas. Sempre busco a imagem de uma casa para montar um quebra-cabeça. Até que percebi que escrevo casas em meus livros. Minha casa antiga é escura, e eu gosto muito da penumbra amarelada que fica independente da hora do dia.  Minha casa suspira de vez em quando, às vezes chora também. Um dia sonhei que chovia muito, mas nenhuma gota passava pelas janelas abertas. As janelas da minha casa formam desenhos no chão quando a luz atravessa. Não são janelas modernas, tampouco comuns. Eu tenho um hábito de me encantar com a casa vazia, sabe. Ela nunca está vazia, na verdade. Eu gosto que, de casa, dá pra ver a amplitude do céu. Às vezes imagin...

A MORTE EM SI

Quando a Agatha estava morrendo, eu passei a noite escutando Natalia Lafourcade. Seu último álbum: De Todas Las Flores. É impossível dormir quando o corpo se torna poesia. Quando as gotas batem nas telhas de casa. Chovia muito quando cheguei no portão da uti. O tempo de espera para me receberem foi o tempo de sufocar da Agatha. Ela não resistiu. Eu não resisti.  Ouve-se pelos cantos que o luto dura dois meses. O luto de um amor dura o resto da vida. A percepção da existência se torna distorcida à realidade dos outros quando conhecemos a morte com mais intimidade do que gostaríamos. Eu sinto que, mesmo tentando, não é possível pertencer ao mesmo lugar que o lugar dos outros. Me vejo como um outro me mantendo por perto do que é comum. A consciência da morte e seu entrelaçamento com a vida. Um olhar atento e cativo ao que se parte física e simbolicamente. Aquilo que é nebuloso a quem perdeu sua sensibilidade. Agatha levou quatro meses para partir. E eu ainda olho de perto meu pedaço d...

VOCÊ JÁ ENTROU EM TRANSE ENQUANTO CAMINHAVA PELA RUA?

Você já reparou como a textura do sol da manhã não é a mesma que a do sol da tarde? Gosto de colecionar sensações. Encontrei a memória de um sentimento enquanto caminhava pela rua, o ônibus vermelho ia vazio em direção ao centro. Voltei ao dia em que  estava neste vazio, em direção à casa. Eu lia o jornalzinho da biblioteca sem conseguir me concentrar por conta da rua esburacada. Era a mesma textura de um sol imaturo demais pra aquecer. E eu sentia paz. Alguma vez você já sentiu que não pertencia ao tempo? Tenho esses momentos em que tudo se desloca, onde percebo as cores, os sons, os movimentos mais claros do que normalmente são. Como se eu observasse uma fotografia ampliada, mágica. E tudo no mundo fizesse sentido. Minha lembrança me levou até o banco da Praça do Japão. Logo que sentei, um rapaz me perguntou se ali era a Rui Barbosa. Disse que não. Ele então se deitou em um outro banco, e dormiu. Você já alcançou uma epifania sensorial enquanto caminhava pela rua?

QUEM É VOCÊ?

  Quem são vocês? Uma vez, dois adolescentes entraram na sala de reforço para matar aula. Percebi a pressa com que se escondiam ali e logo soube o que estava acontecendo. “Quem são vocês?”, perguntei na defensiva. Eles me disseram seus nomes, e aquilo me desestruturou. Quem é você, pessoa que me lê? Recentemente passei por uma experiência de apresentação de mim mesma. Meu nome não importava, assim como não importava o nome de ninguém ali; o que era importante era dizer o que eu estava fazendo naquele lugar e na vida. Quando perguntei aos adolescentes quem eles eram, também não estava interessada em saber quem de fato eram, mas o que faziam ali. Qual é o seu nome, pessoa que me lê? Tem uma música que diz que “a gente é aquilo que a gente faz”. Numa apresentação pessoal sem objetivo específico encontro a mesma falha. “Quem é você?” está substituído por “como você ganha dinheiro?”, “que remédios toma?”, “você se dá bem com seus pais?”. Poderia ser uma piada, mas não é. Inclusi...

A NECESSIDADE DE GRITAR

Tenho pensado na necessidade de gritar. Na necessidade de estarmos gritando o tempo todo para que nossa existência seja admitida. Um grito simbólico. Eu vejo gente gritando o tempo todo para conseguir a aprovação de existir. E o que acontece com aquela gente que silencia? Se a gente não grita, morre pela memória de outra gente que mantém o grito com avinco. Por quanto tempo as pessoas conseguem suportar um silêncio? Alguém deve ter dito que o silêncio é sábio e o grito é desespero. Se ninguém o disse, digo agora. Contudo, ainda é possível gritar no silêncio, assim como encontrar sabedoria no desespero. Eu escrevi um livro, e o engoli logo que ganhou vida. Meu livro existe no silêncio. Mas eu o escrevi gritando, e se eu o grito, ganho existência. Meu livro existe no silêncio. Entendo que, se não gritamos, entramos em desespero, e que o desespero nos leva a gritar. Também preciso dizer que: muitas vezes é doloroso gritar. Gritar cansa fácil. Por isso, eu aprendi a gritar em silêncio.

A REALIDADE PELA FICÇÃO

Eu me identifiquei muito com Charlie Gordon. Engraçado de um jeito peculiar. As pessoas que leram Flores para Algernon também se identificaram? Vi alguns comentários dizendo que o livro não é bom, que só faz os leitores sentirem pena de pessoas com deficiência intelectual. Discordo completamente. Analisando a parte da escrita, senti que o ritmo não se mantém o mesmo do início ao fim. A leitura ficou um pouco mais lenta pela metade da história, se recuperando no final, mas fora isso, não encontro motivos para a crítica. Quanto ao conteúdo, me vejo em processo de absorção e entendimento ainda, mesmo tendo terminado o livro há três dias. Quando eu fazia meu primeiro estágio obrigatório de Letras, conheci uma aluna de 16 anos que cursava o 7° ano do fundamental. Ela não se enturmava com os colegas e não tinha a malícia que adolescentes da sua idade têm. Ela gostava de conversar comigo, me contando, na maior parte do tempo, sobre o trabalho da sua mãe e sua rotina com a escola. Ela passava ...

COMO LAVAR UM TRAVESSEIRO

  De tempos em tempos é preciso lavar os travesseiros. Você pode optar por comprar um novo a cada vez que o antigo ficar inutilizável, mas advirto que o novo acabará sujo mais dia menos dia. Quantos travesseiros sujos está disposte a acumular durante a vida? A melhor forma de lavagem é mergulhar todo o tecido na máquina já cheia de água, e segurar a espuma o mais fundo possível por um tempo, para que toda a extensão do sonho se mantenha molhada. Depois, é hora de bater com sabão, mas não aconselho muita espuma, pois deixa o toque áspero. E por favor, não use amaciante. Aquela máscara não serve de nada. Você poderá perceber que, assim que o travesseiro for centrifugado, será impossível secar tudo ao sol. Por isso, escolha uma parte para ser descosturada. Remova todo o recheio e o estenda ao vento. Se for um dia quente, você poderá recolher tudo em algumas horas. Se desconfiar que irá chover nos próximos dias, reserve um espaço para que seus sonhos abertos possam descansar.  Apó...